25ª Cimeira UE-Rússia: Cinzentona e Embaraçosa

Finda hoje mais uma cimeira UE-Rússia, reunião regular que duas vezes por ano junta os seus respectivos líderes. Esta é a primeira cimeira depois da adopção do Tratado de Lisboa, e talvez por isso a imagem dos novos altos representantes da UE tenha sido apagada. Nada de surpreendente, como nada surpreende o “banho maria” em que as relações entre Bruxelas e Moscovo estão neste momento imersas. Fala-se em regulação financeira dos mercados internacionais num cenário pós-crise, a que a Rússia parece alinhar com a posição da UE mais por formalismo do que por convicção.

Discute-se o tão propalado regime de liberalização de vistos, uma questão sensível há muito veiculada nos corredores das diplomacias, mas que não encontra saída à vista. Clivagens internas à UE, em que alguns estados não estão dispostos a ver a Rússia ser favorecida nesta matéria em detrimento dos estados signatários da “Eastern Partnership”; a par com questões relacionadas com a introdução do passaporte biométrico e com o problema da migração e segurança a partir das regiões sensíveis do Cáucaso, têm levantado sérios entraves à adopção da medida. A isto acresce a necessidade de ultrapassar algumas práticas passadistas russas que incluem, entre outras, a obrigatoriedade de registo de movimentos dos cidadãos estrangeiros em território russo, têm obstaculizado um eventual acordo. Percebe-se a ânsia russa em liberalizar o regime de vistos, mas isso tem de ser – e bem – associado a um outro sem-número de questões, que a UE não pode deixar passar em claro. A questão arrasta-se desde 2003, já sofreu inúmeros progressos, mas é importante que a UE saiba retirar os dividendos suficientes de um acordo já expectável, mas que favorecerá mais a parte russa do que a parte europeia.

Goradas as hipóteses de entendimentos frutíferos e significativos nestes dois domínios, restam os avanços esperados no âmbito da “Parceria para a Modernização”, acordada na cimeira de Estocolmo, em Novembro último, e que prevê o estabelecimento de parcerias a nível empresarial e uma acção mais integrada no campo das altas tecnologias, investimentos de que a Rússia precisa como de pão para a boca.

A juntar a isto, está o mau timing da cimeira. Nada de premeditado porventura, mas embaraçoso; no mesmo dia em que Durão e Van Rompuy apertam calorosamente a mão a Medvedev, a OMON russa (polícia de choque) trata de pôr violentamente termo a várias manifestações da oposição sem assento no Parlamento, acusando-as de contribuírem apenas com um grande vazio de ideias. Lamentavelmente, a UE teima em baixar a cabeça perante uma Rússia autoritária, no mesmo dia de uma cimeira ao mais alto nível, e perante as evidências inequívocas de abusos policiais em catadupa. Em Moscovo e em São Petersburgo a polícia bateu indiscriminadamente e prendeu nesta última cidade mais de uma centena dos trezentos manifestantes. Rostov-on-Don, cidade anfitriã da cimeira, não escapou aos protestos, que mesmo num clima de intimidação, envolveram dezenas de pessoas.

Perante isto, e da parte do Conselho e da Comissão, nem uma palavra. Colocar entraves à liberalização do regime de vistos é um bom sinal, mas não é suficiente por parte de quem aspira a um papel relevante e credível na arena internacional.

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