Besti Flokkurinn

Não sei porque razão, mas depois de ter encontrado publicidade ao “Melhor Partido” lembrei-me automaticamente de uma obra que fui “obrigado” a ler nas aulas de Filosofia do longínquo 12º ano!

O bem e o mal, o perfeito e o imperfeito, o certo e o errado, a razão e o prazer. Dicotomias sobre as quais Friedrich Nietzsche escreveu em “A Origem da Tragédia”. Dois deuses, Apolo e Dionísio, vindos directamente da Antiguidade Grega, encarnam as duas facetas do Homem ou, melhor ainda, da sociedade vista pelos olhos de Nietzsche no seu tempo.

Numa interpretação muito ligeira da obra, pois já foi lida há tantos anos que mal me recordo do seu conteúdo, o lado apolíneo vê-se derrotado e isso explica a decadência da sociedade. A perfeição, o belo, a correcção, a moral, a religião, a supremacia dos bons valores é consumida pela vertente dionísia da sociedade, consagrando-se o desrespeito pelas formas e medidas, o tom de embriaguez e o espírito da música.

Estas atitudes mal vistas na época, e razões que supostamente explicariam a decadência da sociedade, são hoje vistas de outro prisma.

Decadente ou não, continuam a existir valores que guiam toda uma sociedade. Tais valores não são iguais por esse mundo fora, mas sabemos que, pelo menos no Velho Continente, as regras do jogo são, a grosso modo idênticas. E no mundo da política, pese embora as diferenças ideológicas de cada partido, as regras de funcionamento são muito rígidas. Não é comum a ascensão meteórica de partidos recém-formados ou, muitas vezes, liderados por pessoas consideradas menos sérias ou, ainda, ligados a movimentos culturais.

Mas, se personificarmos a bancarrota de alguns países europeus como o lado dionisíaco das economias, teríamos Nietzsche, estou certo, a escrever sobre a Islândia. Escreveria ele que aquela pequena nação, perdida no meio da crista Atlântica, estaria decadente e perdida. Que as forças do Deus Dionísio tinham ganho a batalha… que a sociedade estava voltada do avesso!

E isto porque?! Um grupo de músicos e actores daquele país lançou há meia dúzia de meses um novo partido intitulado “Besti Flokkurinn”, em Português, O Melhor Partido!

Este pequeno partido, sem qualquer filiação ideológica, apresentou-se ao eleitorado da capital islandesa, Reykjavik, como tendo a fórmula mágica para combater a “decadência” do país! “É preciso mudar tudo! É preciso tornear o sistema estabelecido!

As eleições municipais tiveram lugar há poucos dias e os resultados em Reykjavik foram escandalosos! Este Best Flokkurinn ganhou as eleições, deixando o tradicional líder, o Partido da Independência, com o segundo lugar!

O Melhor Partido desenvolveu a sua campanha quase exclusivamente na Internet e, as suas propostas, nada virão a alterar o destino da Islândia (veja, a título de exemplo, duas propostas apresentadas: uma Disneylândia no país e toalhas gratuitas em todas as piscinas da capital islandesa).

Nietzsche poder-se-ia interrogar: será isto o sinal da decadência de uma sociedade ou será isto a manifestação do poder da sociedade em mudar o que está pré-estabelecido?

A resposta é complexa.

http://bestiflokkurinn.is/
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Comments
4 Responses to “Besti Flokkurinn”
  1. João Vítor Redondo diz:

    Artigo muito interessante. Na minha opinião, os resultados das eleições municipais apenas espelham um sinal de revolta dos cidadãos face aos partidos que tradicionalmente ocupam o poder. Não quero crer, até pelo nível de instrução dos Islandeses, que o seu voto fosse um voto consciencioso, no sentido em que eles acreditariam que as propostas fantasiosas deste novo partido fossem alguma solução, ou sequer viáveis.

    Por outro lado, devemos reconhecer, cada vez mais, o papel da Internet na difusão de mensagens, algo que ainda não é, na minha opinião, devidamente explorado pelos Portugueses, mas isso são questões culturais que levam o seu tempo a moldar-se.

  2. ivandpj diz:

    O grande problema que aqui se coloca é o uso do voto enquanto força de protesto.

    Se, por um lado, essa é uma das finalidades do próprio acto eleitoral, o seu uso consciente deve levar em conta as implicações que uma má utilização do voto poderá ter quando usado indevidamente. Um voto terá de ser sempre consciencioso e, ao que tudo indica, não foi este o caso.

    Por outro lado, concordo plenamente com o poder que, não só a Internet mas todos os mass media, detêm hoje em dia. É algo que já se tinha visto anteriormente nas ultimas eleições dos EUA, ou recentemente na sua aplicação nas legislativas em Portugal e um pouco por todo o mundo, tendo na Islândia mais um exemplo.

    Não só é preciso ter consciência no uso e na divulgação deste tipo de informação, como é preciso ter consciência e “dois dedos de testa” para saber o que fazer com a informação adquirida. E penso que, no caso Islandês, faltou algum discernimento ao eleitorado. Independentemente, como é óbvio, do cariz tragi-cómico da situação.

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