Homo Tecnologicus

O uso das novas tecnologias é, cada vez mais, uma necessidade. Mas até que ponto essa necessidade se transforma em obsessão ultrapassando a dimensão virtual, substituindo a realidade?

Ninguém pode negar as vantagens que o advento da Internet e da comunicação massificada, através dos mais variados aparelhos e gadgets, trouxeram ao indivíduo e às sociedades mais desenvolvidas . A globalização veio para ficar e as distâncias são cada vez menores, apesar dos milhares de quilómetros que separam os 5 continentes. Culturas aproximam-se e misturam-se, economias desenvolvem-se mais rapidamente, línguas são cada vez menos locais e cada vez mais globais e as pessoas são cada vez mais…solitárias.

Ao contrário do que se poderia pensar, são vários os artigos que mencionam as dificuldades de socialização, ou o crescente isolamento, de indivíduos de todas as idades, com maior incidência em jovens e adolescentes – precisamente aqueles que mais rapidamente e com maior frequência adoptam as novas tecnologias.

Se pararmos para pensar um pouco, todos conhecemos pelo menos uma pessoa que passa mais horas em frente a um computador ou agarrado a um qualquer comando de videojogos, em vez de passear pelos jardins da cidade (coisa rara no urbanismo português, mas isso é outra história), jogar à bola com os amigos ou mesmo conviver no “café central” (todas as vilas e aldeias têm um).

No mundo virtual existe uma sensação de poder que o mundo real não traduz: o acesso instantâneo a toda e qualquer informação e a capacidade de camuflagem e anonimato que qualquer utilizador obtém, são verdadeiros ceptros de poder que muitos utilizam indevidamente e para as mais diversas finalidades. Verdadeiros donos e controladores da sua própria realidade alternativa. “Deuses” menores.

Um mundo de facilidades onde qualquer acção pode ser facilmente apagada e recomeçada de novo, onde a imagem e aparência é aquela que quisermos ou que a nossa imaginação ditar. Um mundo de fantasia e diferentes personas cada vez mais dissociadas do mundo real. Um mundo (egocêntrico) ideal?

Quando eu era mais novo ia jogar futebol com os amigos. Hoje combinam-se jogos de World of Warcraft online . Quando andava no Liceu tinha que falar com meia escola para que me apresentassem aquela miúda gira que me tirava o sono. Hoje há o Facebook. Já para não falar que nem telemóveis existiam e que eu tinha de ficar acordado até tarde para ver o filme da noite. É que hoje existe o iPhone e os downloads (legais ou ilegais).

A adopção de novas tecnologias não é de agora e vem desde que o homem descobriu que podia utilizar tudo ao seu redor para o ajudar a caçar e sobreviver – já lá vão uns bons milhões de anos. A diferença é que, até agora, a informação, a interactividade e a socialização eram transmitidas presencialmente. Hoje, tudo pode ser adquirido através de um ecrã e uma ligação à rede. O que, levado ao extremo, conduz à alienação do mundo real, ao desleixe e à preguiça na aquisição de conhecimentos, ao rápido preenchimento de necessidades de satisfação e reconhecimento pessoais, e nalguns casos, à não-existência de contacto humano de qualquer espécie – tal pode ser o isolamento no qual o individuo incorre.

Será este o preço do progresso para o ser humano moderno?

Ainda não sei responder com certeza, mas quero acreditar que não. Vou pensar nisso enquanto faço mais uma partida de Call of Duty. Mas, antes, vou enviar uma SMS à minha Mãe para saber se o jantar está pronto.

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Comments
2 Responses to “Homo Tecnologicus”
  1. João Gil Freitas diz:

    Gostei do que li. Bem pensado. Nem tudo é um mar de rosas nas novas tecnologias.

    Mas quando referes que as línguas são cada vez menos locais e mais globais, não te esqueças que um dos efeitos perversos da globalização é precisamente o extermínio de muitas línguas e dialectos locais. Creio que percebi o que quiseste dizer: que hoje as línguas e culturas remotas podem aspirar a uma outra visibilidade, mas isso não significa que muitas delas não estejam ameaçadas. É um fenómeno complexo e porventura paradoxal, mas real.

    • ivandpj diz:

      Sem duvida! Concordo plenamente!

      Existem muitos pontos que ficaram por focar e analisar, o que levaria a um texto maior e mais denso, não tão apelativo a uma pequena reflexão. Pontos estes a que, noutra altura, poderei voltar. Tais como: o aumento dos horários de trabalho devido à facilidade em levar o trabalho para casa, os conflitos familiares derivados a essa mesma alienação do seio familiar – seja para efeitos de trabalho ou lazer – proporcionada pela utilização das novas tecnologias, o facto de a globalização estar a paulatinamente “apagar” as culturas e as tradições locais e regionais, etc etc.

      Quando disse que “línguas são cada vez menos locais e cada vez mais globais”, referia-me à facilidade na sua adopção, devido a uma mais rápida e acessível divulgação. Nem todas as línguas têm essa capacidade (estando dependentes do poder sócio-económico, não só do país de origem, mas do conjunto de países que a adoptaram oficialmente no contexto internacional), assim como nem todos os países tem a capacidade de “impingir” a sua cultura e hábitos a países terceiros.

      Assim como a publicidade é uma poderosa ferramenta ao serviço do Marketing, também as novas tecnologias e os mass media são um veículo de peso na homogeneização cultural, a que assistimos quase impavidamente, chamada globalização. Com tudo o que isso tem de bom e de mau.

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