Cunhal Também Tinha Coca-Cola no Frigorífico

Khodjamakhmad Umarov, 65 anos de idade, é de Dushanbe, cidade capital do longínquo Tajiquistão, uma das repúblicas da Ásia Central e ex-república soviética. Economista, professor universitário e investigador em ciências económicas e comércio internacional, Umarov, apercebendo-se de onde eu vinha, de imediato exclamou: “Portugal? Ah, Álvaro Cunhal!”. Confesso que aquela associação não me deveria ter surpreendido, mas a verdade é que não era exactamente o início de conversa que eu antevia. A associação a Álvaro Cunhal é, afinal de contas, óbvia. Mas não deixa de ser desarmante ser confrontado daquela maneira com o nome do histórico dirigente comunista e resistente político, que fez da antiga URSS uma segunda casa durante o exílio a que a ditadura salazarista o obrigou. A abordagem que fez brilhar os olhos a Umarov e a conversa que se lhe seguiu sobre a passagem de Cunhal pelo território da então República Socialista Soviética Tajique, faz transparecer o modo como a sua imagem, o seu legado, e a sua popularidade permanecem intocadas por todo o território da antiga URSS, incluindo nas remotas repúblicas centro-asiáticas. Ouvir alguém como Umarov falar de Cunhal, mesmo que a conversa não chegue às suas orientações ideológicas (embora se perceba algum reconhecimento para com o antigo regime soviético), denota o imenso respeito e admiração que o português conseguiu granjear em territórios tão improváveis.

Pouca imprensa nacional me suscitou por isso tanta atenção ultimamente como o número da passada semana da Sábado, dedicada precisamente ao histórico líder do Partido Comunista Português. Não tendo atiçado aquele voyeurismo fofoqueiro tão apanágio da nossa imprensa, o artigo de capa da Sábado é curioso por duas razões: primeira, porque procura esclarecer, sem cair em abuso, algumas deturpações sobre a vida privada de Cunhal; e segunda, porque levanta o véu sobre uma das personalidades políticas mais marcantes do século XX português, e que maior admiração e interesse levanta em muitos portugueses. É o meu caso, e após aquela (re)descoberta em Alma-Ata, ainda mais.

Desde sempre cioso da sua vida privada, porventura reminiscência de uma vida pautada pela luta política e pela clandestinidade a que isso obrigava, a verdade é que o verdadeiro homem por detrás de tão fragmentária mas carismática figura permanecia (ainda permanece), em larga medida, um mistério. A entrevista à sua filha, Ana Cunhal, desfaz alguns mitos. Cunhal não foi nunca uma pessoa dura no sentido desprimoroso da palavra, era antes um homem de um traço altruísta, com uma visão para o mundo em que acreditava piamente, e com um estilo de vida em que fazia por transparecer as suas convicções – nada mais do que o necessário, sem vaidade, sem ostentação, sem superficialidades.

Poucos sabiam onde vivia. Não falava da sua vida privada e fê-lo muito poucas vezes. A imagem de duro seria isso mesmo, uma imagem, já que Cunhal era na realidade uma personalidade respeitosa, de uma integridade intraduzível, bondoso, recto, cioso da família, enfim, um homem modelar. Esta é grande conclusão que se pode tirar do trabalho jornalístico da Sábado. Muitos argumentariam que isso não quer dizer nada, que Cunhal sonharia com a implementação de uma ditadura do proletariado em Portugal no pós-25 de Abril, que apoiou a intervenção soviética na Checoslováquia, etc.

Mas não é disso que aqui se trata. Crendo eu na importância de conhecer os gostos e os hábitos de figuras políticas aparentemente imperscrutáveis, creio ser verdade afirmar que homens como Álvaro Cunhal haverá já poucos neste país, não por ser de esquerda, não por ser comunista, mas por defender piamente as causas em que sempre acreditou, e por elas se ter batido e acreditado uma vida inteira. Tal não deve impedir (não deveria) impedir ninguém, colocando de lado a simples questão ideológica, de reconhecer a sua enormíssima craveira intelectual, a sua inteligência, a sua abnegação política e a sua conduta social. Pergunto-me afinal quantos tecnocratas de hoje, quantos políticos de gabinete, quantos boys, quantos hoje aparentemente dedicados à causa pública (PCP incluído) têm hoje metade da coragem, da hombridade e da seriedade de um homem como Cunhal. Quantos responsáveis deste país, dito democrático, sabem dar um exemplo de boas práticas e de temperança, mais ainda nos tempos que correm?

O que mais me veio à cabeça enquanto ouvia Umarov, é precisamente a importância, a urgência, de conhecer a vida e a obra de homens desta grandeza, de que Cunhal é exemplo, havendo outros. Volvidos que estão agora cinco anos do seu desaparecimento, é importante que a sua memória se perpetue, que seja estudada, debatida com rigor, sem preconceitos nem parcialidades, devendo sobretudo servir para reflexão num país ávido e deficitário de referências. Seria importante não permitir que a ideologia e as controvérsias históricas esbatessem uma vida tão digna como a de Cunhal.

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