Uma Viagem às Maravilhas da Noruega (II)

Após algum tempo em Oslo, é tempo de confirmar o que o boca-a-boca nos vai revelando sobre o interior do país. O destino é Bergen, segunda cidade da Noruega, a “apenas” 6h30 de comboio. O ideal é mesmo apanhar o que sai bem cedo pela manhã, ainda para mais num mês como Outubro, que não é especialmente abonado em horas de luz – que o sol, numa altura como esta, é já luxo de europeu do sul. A viagem começa, ainda sonolenta e com o cérebro mal recomposto de uma noite passada num mal refreado entusiasmo. A expectativa é grande e não é defraudada: não muito tempo depois de Drammen, cidade limítrofe da capital, a paisagem que se nos vai apresentando fora da vidraça é um regalo para a vista e um bálsamo para a alma. Os olhos vão-se banqueteando perante a presença esmagadora de lagos que reflectem a natureza envolvente, estonteantes montanhas e prados ainda verdejantes que o branco vai ameaçando. A linha Oslo-Bergen é mais do que uma linha de comboio que liga as duas principais cidades do país. É uma atracção em si mesma, continuamente admirada pelos próprios noruegueses, a quem o hábito de ali viver não amainou a incontornável necessidade de se vergarem perante tão encantadora e abundante beleza.

Já em Bergen, cidade onde andar sem guarda-chuva na mão ou sem impermeável vestido é sentença de molha, a toada é outra. Contrasta tamanhamente com Oslo que não seria difícil fazer alguém acreditar que já não pisávamos solo norueguês. Bergen é também a cidade mais “europeizada” da Noruega. A presença dos estudantes, muitos deles oriundos das mais diversas proveniências, confere a Bergen uma “movida” muito distinta de Oslo. A isto juntam-se as ruas estreitas e íngremes, os becos com improváveis cafezinhos, e a visível herança germânica, que remonta aos tempos da Liga Hanseática, e que fez de Bergen um importante entreposto comercial do norte da Europa. Prova disso mesmo é a zona junto ao cais, Bryggen, materialização da rica herança cultural germânica, e Património Mundial da Humanidade.

Estar em Bergen significa também adquirir passaporte automático para uma visita deslumbrante àquilo por que a Noruega é conhecida mundo fora: os fiordes. É chegada a altura de marcar encontro com as maravilhas da região da Vestlandet – literalmente “terra do Oeste”. Para já, é tempo de descobrir uma das mais idílicas linhas férreas do mundo, a linha de cerca de 20 km de extensão que liga as pequenas localidades de Flåm e Myrdal. Trata-se de uma pequena linha férrea com ligação directa à linha principal Oslo-Bergen, mas que em tão curta distância é capaz de proporcionar momentos não menos inesquecíveis. Em apenas 20km, a linha férrea sobe continuamente entre montanhas e vales em ziguezague, desde o nível do mar até atingir, em determinado ponto do percurso, quase 900 metros de altitude. O Flåmsbana – assim se chama a nossa simpática composição – torna-se no guia que transporta o mais desprevenido dos visitantes a uma visita guiada com vista privilegiada sobre o recorte natural da região, e a uma maneira fantástica de absorver por completo o lugar onde nos encontramos. Absorver a beleza indescritível da viagem não é fácil, tal como não é fácil libertarmo-nos do torpor embevecido depois do seu término, já em Myrdal, a uns mui respeitosos 866 metros, e encurralados por deslumbrantes montanhas onde o branco impera. Menos não seria de esperar de uma linha férrea constante do restrito lote das 25 mais belas do mundo.

 

E depois… o divino. Não faltam momentos ao comum dos mortais em que a crença nas coisas boas e bonitas deste mundo se parecem afundar num mar de dúvidas, de ansiedade despropositada e, acima de tudo, de falta de fé e de vontade de sorrir. Os fiordes são o antídoto para tudo isto. Retiram-nos da letargia do quotidiano, e faz romper com a sensação de estarmos afundados nas nossas modestíssimas vidas, agrilhoados a coisas não raras vezes superficiais, laterais, à procura de um qualquer bem maior que nos faça feliz, sem realmente saber exactamente qual, o quê, ou quem. Levados perante a presença majestosa da Mãe Natureza, passamos a acreditar que uma pura e embevecida felicidade só pode ser proporcionada pelo contacto com a perfeição. Perfeição, conceito que alguns dizem ser inerentemente avesso à presença humana, aparece proporcionado pelo contacto com um lugar que parece permanecer fora do mundo e das coisas terrenas, acima da iniquidade e da perfídia dos Homens, bem junto a algo que não somos capazes de entender.

O contacto com os fiordes transporta-nos, durante algumas benditas horas, a um certo estado de elevação emocional, a uma espécie de nirvana onde nada mais existe senão as imponentes montanhas, as árvores, a cristalina água. Esmagado pela beleza natural circundante, sentimos estar perante algo de divino, de incompreensível. Como se olhar extasiado para uma paisagem tocada por Deus nos fizesse estar mais próximos da verdade, mas ao mesmo tempo, longe como sempre. Durante algumas horas, sei que estive preso a um sentimento chamado felicidade, não àquela felicidade de todos os dias, mas a um preenchimento de todos os cantos da alma por esse sentimento que, bem vistas as coisas, é a única razão pela qual habitamos esta Terra. Durante algumas horas, fiquei com a impressão de que o verdadeiro mundo seja talvez aquele, não é o nosso. Durante algumas horas, e isso sei-o, não fiz parte dele.

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