Futebol e Relações Internacionais

O Campeonato do Mundo de futebol findo há pouco mais de uma semana fica para a história como o primeiro jogado no continente africano. Durante um mês e com ecos premonitórios cada vez mais fortes à medida que o evento se aproximava, a África do Sul, embandeirando o valioso capital de confiança que é o legado de Mandela, procurou mostrar-se internacionalmente como um país fiável, livre, organizado, e em paz social. A instrumentalização do desporto-rei para fins de índole política não é um fenómeno novo, longe disso. Na era das comunicações massificadas, o lugar do futebol tem ocupado um lugar de destaque, e este Campeonato do Mundo veio demonstrar que esse lugar não está em risco de obliteração, muito pelo contrário.

O primeiro Campeonato do Mundo jogado num continente tristemente marcado e dilacerado por guerras, fome, pobreza extrema, epidemias e morticínios de vária ordem, não pode ser outra coisa que não uma das mais significativas expressões de uma globalização sem precedentes. Os investimentos feitos pelas grandes multinacionais associadas ao Campeonato do Mundo são astronómicos, e muitas outras procuraram obstinadamente o seu “lugar ao sol” entre os patrocinadores. As marcas de material desportivo digladiam-se para conseguir fornecer as selecções e associar a sua marca aos craques mais populares – uma estratégia que lhes tem permitido multiplicar os seus lucros. A nível nacional, os patrocinadores internos não se coibiram de ter o seu nome bem estampado nas camisolas de treino das selecções, com uma imagem atempada e estrategicamente bem pensada e estudada. Não tendo sido este o Mundial mais visto, o evento voltou a ser altamente mediatizado, vaticinando a consolidação da importância das comunicações por satélite que desde os anos 90 faz multiplicar exponencialmente a informação difundida a nível planetário. Para a globalização do desporto-rei tem contribuído cada vez mais as competições internacionais de selecções, com muitas delas não sendo já constituídas exclusivamente por jogadores nacionais, mas naturalizados.

Estamos por isso perante duas tendências (ainda que discutivelmente) contraditórias e conflituantes: se por um lado, é possível constatar uma tendência do tipo bottom-up, com um país como a África do Sul a procurar mostrar o seu potencial político e económico e procurando passar uma imagem de oásis africano; por outro, não é menos verdade que as dinâmicas comerciais que fazem do futebol um negócio à escala global se mantêm e até se fortaleceram, naquilo que, para efeitos comparativos, se pode ter por uma arreigada dinâmica top-down.

O desporto em geral, mas particularmente o futebol (tendo em conta a sua expressividade), é de facto um dos maiores laboratórios para estudo do fenómeno da globalização. Tendências conflituantes não são novidade, mas atingem hoje uma proporção à vista de todos e são por si só um interessantíssimo fenómeno social. No cerne da questão a partir da qual emanam estas duas tendências, está a racionalidade económica do futebol. Se sua a dimensão clubística cedo cedeu aos imperativos económicos, nomeadamente através da compra dos melhores jogadores e da qual não depende a sua nacionalidade, o futebol jogado por selecções parece caminhar num perigoso fio da navalha.

Por um lado, este Campeonato do Mundo mostrou o cansaço de muitos jogadores, a ausência de uma parte muito significativa de grandes praticantes, a mediocridade de uma selecção como a inglesa (poucos ingleses são titulares nas equipas do seu campeonato nacional), a evidência da interferência dos clubes no dia-a-dia das selecções, a presença de estrangeiros naturalizados em muitas delas em nome de uma alegada maior competitividade e, acima de tudo, a necessidade de pagar exorbitantes prémios de jogo a treinadores e jogadores que defendem as cores do seu país em campo sob pena, porventura, de uma menor dedicação. Situações como estas atestam uma crescente permeabilidade entre as práticas de racionalidade económica predominantes no mercado futebolístico de clubes, e o futebol internacional de selecções.

Por outro lado, diga-se, as selecções nacionais de futebol continuam a apresentar-se como uma das maiores contribuições para a construção das identidades nacionais, assumindo-se como uma das suas maiores representações. Assim sendo, parece discutível que esta permeabilidade ocorra pacificamente. Se for tida em consideração somente a emoção que o adepto comum transporta para o jogo, tal não é de prever. Mas como é sabido, os ditames da racionalidade económica são poderosos, e nem sempre coadjuváveis com o puro sentimento do adepto. As questões que se colocam são pois as seguintes: poderá a (excessiva) racionalização económica do futebol colocar entraves às formas de expressão das identidades colectivas por parte dos adeptos, respeitando as suas sensibilidades? Por outras palavras, consegue o futebol ser ao mesmo tempo agente da globalização e factor limitador da mesma?

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