Patuá na Quinta Nova

A manhã estava serena e tudo apontava para mais um dia infernal no Vale do Douro. Cá de cima podia observar o rio de águas calmas apenas cortadas pelos barcos cheios de turistas que visitam a região. Ao longe, ainda meio escondida pelas nuvens matinais,  a silhueta dos montes e montanhas que fazem do Douro a mais bela região vitivinícola do mundo! Hoje em dia, são muitas as quintas convertidas em autênticos hotéis, uns de capitais estrangeiros, outros totalmente portugueses. A Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo é uma dessas quintas recuperadas que hoje alia a produção de vinhos DOC do Douro e do Porto, com uma oferta hoteleira de grande qualidade.

Sentei-me numa mesinha sobranceira à piscina da Quinta enquanto aguardava a chegada do Erik, um Chinês de Macau, baixo, forte e de pele bem morena, que andava a fazer uns prospeções de trabalho pela região.

O Erik, apesar de formado em engenharia,  é produtor cultural na antiga colónia Portuguesa. O trabalho que está a desenvolver neste momento alia as novas tecnologias (video-projeção, efeitos visuais, luz e som) com dança e com a pintura tradicional chinesa. A artista responsável pelo espectáculo, que não pôde estar presente, está interessada em experimentar novas técnicas para a pintura e lembrou-se, vivendo ela numa ex-colónia Portuguesa, de usar vinho em vez das tradicionais tintas chinesas. E falando de vinho e Portugal, a primeira ideia recaiu sobre Vinho do Porto,  o grande embaixador do nosso país por esse mundo fora.

O Erik veio à região para poder conhecer as quintas, os produtores e apresentar o seu projeto. É interessante, é um facto, mas pareceu não ter aberto muito o apetite às mentes tão avançadas que povoam esta região…

No meio da conversa, e depois de alguns bons minutos de apresentações, tive a coragem para lhe fazer umas questões sobre política. Sei que falar abertamente de política não é coisa que os Chineses façam regularmente, mas aproveitando o facto de o Erik viver numa “região de administração especial” dentro da China de “um país e dois sistemas”, perguntei-lhe qual o tipo de relações entre a República da China, vulgarmente designada por Taiwan, e a China continental; se falavam abertamente de política em Macau; que tipo de controlo sentiam quando viajavam para o interior da China e, não podia faltar, qual a imagem que os Chineses, os de Macau em especial, têm de Portugal.

As respostas não podiam ser mais surpreendentes! Afinal, graças ao estilo de vida “capitalista” que os Portugueses lá deixaram, graças à manutenção da lei com base no direito português, do sistema judicial muito idêntico ao nosso e, claro está, ao estatuto de autonomia (muita alargada) que Macau goza, a vida no território está “facilitada“, disse o Erik. “Falamos de política, elegemos os nossos dirigentes [embora Pequim esteja sempre presente…apontamento meu], recebemos televisão estrangeira, mantemos uma vida muito cosmopolita. Há muitos estrangeiros, especialmente turistas, e Macau goza o privilégio de ser a única região em toda a China onde os jogos de fortuna e azar são legalmente permitidos.” Macau funciona também como placa aérea para os voos entre o continente e Taiwan, pois não existem ligações diretas entre as duas Chinas. Pela conversa que o Erik mantinha, dava a entender que não havia uma censura tão apertada como na China continental, que o Governo da região mantinha um sistema de segurança social ativo e um sistema de saúde aberto a todos os cidadãos da península.

Não era a primeira vez que o Erik visitava Portugal. Da primeira vez foi o choque! Choque porque afinal a imagem que passam de Portugal em Macau não é o que na realidade se passa em por estas terras. Nas escolas, apesar de o Português continuar a ser língua oficial, a par do Cantonês, os manuais escolares são importados diretamente de Hong Kong. São escritos em inglês e apresentam a História na perspetiva inglesa. Resultado, só quando o Erik visitou Portugal em 1998 descobriu uma data de façanhas que os Portugueses andaram a fazer por esse mundo fora… descobriu “que no Brasil e em África também se falava Português” e que o nosso país, afinal, “é muito “maior” que aquilo que os livros ingleses escrevem!“. Acha ele que o Governo de Lisboa devia enviar mais professores de Língua Portuguesa para Macau e que devia haver mais campanhas publicitárias ao nosso país. “Quando as Embaixadas de França ou de Itália organizam qualquer evento na região, há sempre uma comitiva enorme e são apresentados os vinhos e os melhores produtos destes países! É isso que vocês deviam fazer!

E quanto à crise? Erik não escondeu o receio de voltar a Portugal, especialmente porque o seu propósito não é fazer nenhum “negócio da China! “O meu objetivo é fazer com que o Douro se promova em Macau e, claro está, usar o vinho como elo de ligação entre a vossa promoção e o meu atual projeto.” Mas para isso é preciso dinheiro. Erik disse que tinha falado com alguns Portugueses  e, também, com alguns professores de economia quer da China continental, quer de Macau. Numa época em que Portugal, Grécia e Espanha parecem sofrer do mesmo síndrome, sendo constantemente equiparadas as suas economias, foi-lhe dito que isso era uma falsa imagem do país e que a economia lusa mostrava sinais de ser bem mais forte que a grega.

Não sei se lhe explicaram mais coisas em relação à nossa economia, mas a verdade é que parece que na China, os olhos em bico miram a nossa economia de uma forma diferente da dos olhos das grandes agências de notação financeira.

Numa altura em que crise é, provavelmente, a palavra mais ouvida e dita pelos Portugueses (e não só…), nada melhor que umas palavras cheias de esperança que alguém da China trouxe até ao Douro!

É caso para dizer, o moço tem pátua!

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