Nova era, novas medidas.

Desde o advento da internet da banda larga que muito se vaticina sobre o futuro de algumas industrias que sempre estiveram apoiadas em suportes físicos.

Os filmes facilmente retirados da internet e reproduzidos num vulgar computador, ou passado para o leitor de DVD da sala de estar. Mais recentemente os livros, que alguns iluminados dizem ter os dias contados, tal como os conhecemos (pela primeira vez a Amazon vendeu mais livros em formato digital do que em papel). Mas a primeira verdadeira vítima foi a indústria discográfica. Produtoras, distribuidoras, artistas e estúdios têm, ao longo das últimas décadas, dado voz à revolta contra a pirataria de que estão a ser vítimas, reduzindo as margens de lucro da indústria para níveis mínimos nunca antes atingidos.

Claro que a discussão em volta da pirataria é um tema bastante interessante e pontos de vista, esses, há para todos os gostos, com mais ou menos razão. Mas aquilo que me leva a escrever estas linhas é outra.

Assistimos a tempos de mudança. Em que o fácil acesso à tecnologia é cada vez mais difundido e em que os conteúdos digitais são mais rápida e facilmente assimilados por todas as classes e faixas etárias da sociedade. E, na maior parte das vezes, de forma gratuita. Então, no que concerne ao entretenimento, porque devemos gastar dinheiro se, de facto, conseguimos ter o mesmo de forma gratuita?

A primeira resposta a essa questão é óbvia. A segunda também. Primeiro porque a qualidade obtida, por parte de um produto original, nunca pode ser comparado a uma cópia e aí quem sai beneficiado é sempre o consumidor. Em segundo lugar, ao comprar um produto original estamos a apoiar uma indústria que queremos que continue a proporcionar-nos aquilo que se disponibiliza a oferecer-nos: tempo de qualidade, entretenimento e cultura.

Mas esta batalha não pode ser apenas combatida pelo consumidor.

Recentemente um artista norte-americano lançou mais um disco da sua longa carreira. Gostos não se discutem, evidentemente, mas é notório verificar a qualidade imposta pelo artista e pela sua editora na divulgação do seu trabalho.

Como seria de esperar foi lançado um single, pronto a correr nas rádios de todo o mundo e entrar nos ouvidos de toda a gente, de forma a dar a conhecer o álbum. A acompanhar (e porque a musica não passa apenas na rádio) foi lançado um mega videoclip. Mega porquê? Porque tem uma fotografia fantástica, efeitos visuais memoráveis um argumento credível que facilmente adapta a letra da própria musica, uma realização irrepreensível e, acima de tudo, um elenco de luxo. Estrelas da musica, cinema e televisão dão vida a uma (caríssima) produção audiovisual que não dura mais do que 5 minutos. Este videoclip passa nas televisões e pode ser facilmente encontrado na internet. Gratuitamente.

As minhas questões são: não seria preferível esse conteúdo estar disponível (através de um DVD extra por exemplo) para quem comprasse o álbum? Ou ser um conteúdo apenas disponibilizado para os fãs, através de um registo no site oficial (por exemplo)? Não seria mais interessante disponibilizar algo que trouxesse maior valor acrescentado a quem, de facto, apoia os artistas, contribuindo para a valorização da compra dos seus produtos originais, em vez de disponibilizar de forma gratuita este videoclip milionário?

Assim enche mais o olho. Assim, chega a mais pessoas. Mas se fosse disponibilizado de forma racionada e seriada (como os exemplos acima) seria, com toda a certeza, copiada e lançado em canais de internet mais “obscuros”, e todos sabemos que o fruto proibido é aquele que mais apetece ter. Por outro lado, quem tivesse o original saberia que tinha o seu dinheiro valorizado. E o próprio buzz gerado por uma acção deste género, serviria para marcar a posição do artista e criar uma legião de seguidores mais fiéis que, de facto, compram os produtos originais. Quem ganhava? O artista, os fãs e a própria industria.

Nada é feito ao acaso, bem sei, e tudo isto tem uma estratégia de marketing e promoção por trás. Fico á na dúvida se será a mais acertada e se, por isto mesmo, a indústria não se está a saber reinventar e adaptar a um mundo cada vez mais gratuito, globalizado e cada vez menos individualizado.

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Comments
One Response to “Nova era, novas medidas.”
  1. João Gil diz:

    Concordo em pleno. A indústria discográfica abriu tarde os olhos para o flagelo da pirataria, provavelmente cega pelos lucros obtidos até há poucos anos atrás. Tem procurado reinventar-se, com sucesso limitado.

    Os preços dos álbuns têm vindo a descer para níveis mais razoáveis para o produto que se compra. Mas isso não chega. O exemplo que citas é, no entanto, parte da realidade. Já se pode ver muitas editoras a apostar em produtos mais sofisticados e mais elaborados. Muitos cd’s trazem DVD incluido, faixas extra, livretes, e outro tipo de conteúdos exclusivos. Parece-me um bom caminho. Mas verdade seja dita que também não vejo muitas mais pretensas “soluções” para o problema.

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