O segredo por detrás das alianças

Em vários aspectos das relações internacionais, o comportamento humano pode ser transportado para o comportamento dos Estados, permitindo que se possa compreender, de uma melhor forma, certos acontecimentos. A formação de alianças representa um desses casos. Embora a discussão sobre a formação de alianças permaneça acesa, inclusivamente entre as diversas teorias das relações internacionais, penso que alguns aspectos poderão ser amplamente identificados. Reportando-nos às duas principais teorias, os realistas assumem que a formação de alianças é rara e apenas surge perante um quadro de maior ameaça, ou seja, dois ou mais Estados poderão aliar-se perante o aparecimento de uma ameaça que coloque em risco os vários Estados, o que os força a colaborarem para se tornarem, momentaneamente, mais fortes, no entanto, trata-se de um processo extraordinário e, por esse motivo, provisório. Já os liberais, explicam o estabelecimento de alianças entre Estados como algo de natural, por os Estados reconhecerem que existe um bem e interesse comum que deverá ser respeitado e partilhado.

Reconhecendo que o ideal seria os Estados colaborarem em prol de um interesse comum, sendo essa aliança o garante de um ambiente de paz, segurança e prosperidade mundial, tal não parece ser a realidade, existindo, para esse resultado, um aspecto essencial que conduz todos os Estados e os seus líderes: o poder. Tal como iniciei esta minha reflexão, o comportamento dos Estados passa pelo comportamento dos seus cidadãos, enquanto seres humanos. Parece-me claro que o ser humano gosta de ter poder e deseja obtê-lo sempre e do modo que for possível, podendo esse poder traduzir-se sobre várias formas (económico, político, financeiro, religioso, territorial, social,…).

Ora, com os Estados acontece o mesmo, e estes procuram, acima de tudo, atingir os seus objectivos pessoais, de modo a satisfazer a sua população, pois é ela que garante eleições, que garante o apoio aos seus líderes, e quando assim não acontece, normalmente significa que os líderes do Estado procuram satisfazer os seus objectivos pessoais, através do reforço do seu poder político e económico, algo muito comum nos regimes ditatoriais.

Mas então, o que poderá justificar o estabelecimento de alianças? A verdade é que estamos num mundo cada vez mais interdependente, ou seja, no qual dependemos, cada vez mais, uns dos outros, e isso reflecte-se acima de tudo nos recursos energéticos e no clima económico-financeiro que partilhamos. A aliança surge assim como o melhor meio para os Estados atingirem os seus objectivos pessoais, embora muitas vezes sejam estabelecidos por pretextos menores. É natural os membros de uma aliança terem alguns interesses comuns, mas os Estados continuam a orientar as suas políticas através dos interesses particulares e imediatos de cada um.

Num registo diferente, mas que nos pode ajudar a perceber alguns aspectos inquietantes do comportamento humano, vi, há pouco dias, um filme, que muito de vós deverão conhecer: Watchmen. Trata-se de um filme peculiar, com um público-alvo relativamente bem definido, baseado numa comic book series, adaptada para o cinema pelo realizador Zack Snyder, conhecido por outra adaptação do género: 300. Obviamente, trata-se de um filme direccionado para os amantes desse tipo de obras e que estão particularmente interessados na capacidade das grandes empresas cinematográficas e dos realizadores em adaptar livros de bandas desenhadas, como vulgarmente apelidamos, para o grande ecrã. Na maioria das vezes, este objectivo não é conseguido, pela falta de originalidade e capacidade interpretativa dos realizadores, assim como pelas falhas na selecção do elenco.

Este não é o caso, na minha opinião, deste filme. Zack Snyder que já havia realizado um óptimo trabalho com a adaptação da obra sobre os 300 Espartanos que combateram a invasão persa ao seu território, conseguiu, mais uma vez, transportar a magia dos livros de comics para o cinema. Para quem viu o filme, a parte final do mesmo transmite, simultaneamente, um enorme grau de complexidade, ligada ao suspense sobre o motivo pelo qual o acontecimento determinante do filme ocorre, associada a uma simplicidade de pensamento que nos faz perceber que, de facto, tal poderia suceder, ultrapassando aquilo que consideraríamos de utópico. Como conclusão, a obra sugere uma aproximação/aliança entre os Estados Unidos e a ex-URSS, ainda durante o período da Guerra-fria, pelo aparecimento de uma ameaça maior aos Estados. A confrontação entre os dois Estados tornara-se, de facto, obsoleta e a única solução para a salvação de ambos os Estados seria uma aliança contra a nova ameaça. O curioso e inquietante seria constatar que a nova ameaça fora criada artificialmente, apesar de ter custado a vida a milhões de pessoas, sob o pretexto de que para o estabelecimento de um ambiente de paz mundial, seria sempre necessário o sacrifício de alguns.

Esta perspectiva é, neste sentido, bastante perturbadora, mas assenta numa base teórica bastante consistente e que conta com a previsibilidade do comportamento e da natureza humana. Independentemente destas considerações, concordo com John Mearsheimer quando este afirma que as alianças são improváveis pois são muito difíceis de se estabelecer e ainda mais difíceis de se manter. Não querendo associar a minha opinião, pelo menos de uma forma directa, a uma escola teórica, penso que as alianças ocorrem quando o interesse particular do Estado se conjuga com um interesse comum de vários Estados, estando cada um dos membros conscientes de que será através da aliança que poderão satisfazer mais rapidamente os seus interesses particulares. Nesse sentido, o aparecimento de novas e maiores ameaças representa um dos catalisadores máximos para o estabelecimento de alianças.

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