Tempo

Quando entramos para a escola, deixamos os nossos amigos, os nossos brinquedos, o conforto do nosso lar e do aconchego dos pais. Regidos por uma professora, somos confrontados pela primeira vez com a gestão dos nossos horários e das nossas tarefas, mesmo sem nos apercebermos da complexidade dessa mesma gestão. Com preocupações bem diferentes das da vida adulta, deixamos de brincar tanto com os nossos brinquedos favoritos, ou com os nossos vizinhos e primos da mesma idade, para passar horas de volta dos cadernos e dos livros a por em prática o saber que trouxemos na mochila, depois de mais um dia de estudo. Em compensação, conhecemos novos amigos. Começamos a aprender novas coisas, até então desconhecidas, e descobrimos, também, novas brincadeiras que rapidamente substituem as antigas.

Após quatro anos, que nos parecem longos aos 11 anos e tão longínquos agora, separamo-nos dos nossos amigos que nos acompanharam desde os 8. Sempre na mesma sala, sempre regidos pela mesma professora (ou professor) e que fizeram parte do nosso processo de aprendizagem e de enriquecimento. Entramos numa nova etapa em que nos é exigido mais conhecimento, maior gestão de horários e a criação de novas relações interpessoais. Surgem as primeiras paixões arrebatadoras, a descoberta da puberdade e do que vem com ela. A mudança de voz e também o refinar dos nossos gostos. Começamos a gostar de certas matérias na escola, de certos estilos de música ou de filmes. De actores e actrizes. De ler. De sair com os amigos. De faltar às aulas. E os dias parecem curtos. E demasiado longos quando se aproximam os primeiros testes e avaliações.

Acabamos o liceu e entramos na Universidade. A sociedade já espera algo de nós então. Determinados conhecimentos, determinadas posturas e comportamentos sociais. Determinadas experiências que já devemos ter. Homens e mulherzinhas que a sociedade vê como adultos para algumas coisas e tão ingénuos e novos para outras. Começam, nesta fase, grandes decisões que nos vão acompanhar para o resto da vida: o curso a tirar (e o que fazer com ele depois), a Universidade a escolher (porquê aquela e não outra), a gestão cada vez mais acentuada dos horários, decorar livros inteiros, saber tudo sobre tudo, especializar naquilo que mais se gosta (ou naquilo que irá dar mais dinheiro, ou que queremos vir a fazer no futuro ou qualquer que seja a motivação que leva a essa mesma especialização).

Após 4 anos (ou 3 ou 5 ou os anos que forem) o resultado é este: tivemos de aprender muito. Desde novos tivemos de saber gerir muito bem as 24 horas do dia (um processo que nos será muito útil e que nos irá acompanhar para o resto das nossas vidas). Criamos laços afectivos e novos amigos. Uns perduram outros serão apenas gente conhecida com as quais convivemos. Crescemos num local, aprendemos noutro e vivemos em diferentes cidades.  Vivemos e crescemos. Evoluímos. Com isto, cerca de 20 anos da nossa vida passaram (mais coisa menos coisa).

Saindo da nossa zona de conforto (a vida estudantil), abraçamos uma outra realidade. E nem sempre estamos bem preparados para ela. Uma realidade mais cruel, mais rígida. Deveras exigente e agressiva. Nem sempre justa e, muitas vezes, solitária. A entrada no mercado de trabalho pressupõe, mais uma vez, uma nova cidade, novos amigos e colegas. Um patrão. Concorrentes ferozes, dentro e fora da nossa empresa/ instituição de trabalho. Conhecimentos adquiridos e provas dadas de uma adaptação (o mais rápida possível) a essa mesma nova realidade. Quem se adapta: trabalha e esforça-se para subir na carreira e na vida. Quem não se adapta: salta fora e tem de começar de novo – eu disse que era cruel. E nem sempre justo.

Viver é cada vez mais difícil.

Viver implica laços. Implica união. Viver implica tempo e esse é, cada vez mais, um bem escasso. Em detrimento da aquisição de conhecimento, exigidos pela nossa sociedade, passamos mais horas em frente a um computador ou dentro de bibliotecas e laboratórios do que a construir laços sociais e interpessoais. Quando estamos a começar a construir esses mesmos laços a sociedade tira-nos o tapete debaixo dos pés e novas mudanças tornam cada vez mais o individuo num lobo solitário: uma nova cidade, uma oportunidade num outro país, flexibilidade de horários que nos fazem viver de noite e dormir de dia, a carga de trabalho que aumenta os horários de expediente, e tantas outras razões que nos tornam cada vez mais em máquinas e com cada vez menos oportunidades para ser, simplesmente, aquilo que somos: humanos.

Jovens juntam-se casam-se cada vez mais tarde e cada vez durante menos tempo. O número de parceiros sexuais per capita aumenta quanto mais nómada se torna o indivíduo (embora isso não seja necessariamente mau para alguns). A taxa de divórcios também aumenta constantemente a cada ano. A natalidade é reduzida e sempre (cada vez mais) tardia. Simplesmente não há tempo. É escasso.

Desde crianças que lutamos contra o tempo. Uma corrida contra o relógio que, cada vez mais, é difícil de ganhar. Difícil, nunca impossível! Mas já tenho saudades daquilo que ainda não vivi.

“Eternidade não é algo que eu prometa, mas sinto que ainda tenho areia na ampulheta” – Samuel Mira

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